Notas de Leitura

Lenoir, Frédéric, O Milagre Espinosa. Uma Filosofia para Iluminar a Nossa Vida, Quetzal Editores, 2019.

Lenoir, Frédéric, O Milagre Espinosa. Uma Filosofia para Iluminar a Nossa Vida, Quetzal Editores, 2019.

Frédéric Lenoir assume o imenso fascínio que o filósofo Baruch de Espinosa lhe suscita, e como é desafiador ler e analisar a sua obra, escrita numa época, o século XVII, marcada pelo obscurantismo, pela intolerância e pelo fanatismo. A coragem e o inconformismo de Espinosa ficaram para a História do pensamento ocidental: sofreu a condenação de todas as religiões praticadas na Europa porque propôs, com a sua filosofia, uma libertação do espírito humano das tradições e dos conservadorismos (p.17). O objetivo de Lenoir, enquanto estudioso do pensamento de Espinosa, é perfeitamente claro perante o leitor: dar a conhecer o sistema filosófico, onde a razão está no centro de tudo, sem descurar a perceção das causas de uma tão original vida e obra. Daí, o constante recurso às fontes onde, para além da obra de Espinosa, foram fundamentais a leitura dos seus escritos avulsos e da correspondência trocada com outros pensadores, sem esquecer os textos de autores contemporâneos, alguns deles muito críticos. O resultado é uma obra de divulgação, feita por um especialista que nunca descura o rigor: cada capítulo tem as suas esclarecedoras notas, muito úteis e explicativas, sendo o texto finalizado com a lista da bibliografia consultada.

Espinosa nasceu nos Países Baixos em 1632, à época um território central no desenvolvimento das artes e das letras, sendo Amsterdão a cidade onde se publicavam os mais importantes e mais inovadores escritos que expunham as descobertas científicas e a divulgação das ideias dos intelectuais (pp.29-30). Muito influenciado por Descartes, Espinosa abraça a filosofia como uma forma de vida em busca do bem verdadeiro, ou seja, de uma verdadeira sabedoria que, na senda dos antigos filósofos gregos, consistia no estado de felicidade interior e não dependente de causas exteriores (p.32). Nesse percurso, Espinosa entra em rutura com a sua comunidade religiosa, a judaica, acabando por se distanciar fisicamente de Amsterdão para encontrar a paz de espírito na comunidade da universidade de Leiden. As suas principais obras, valiosíssimo legado à cultura humanista do Ocidente, foram o Tratado da Reforma do Entendimento, o Tratado Teológico-Político e, sobretudo, A Ética. É sobre este último texto, o mais famoso de Espinosa, que Lenoir se debruça e que, de uma forma clarividente, consegue transmitir ao leitor dos dias de hoje. Ficam patentes a coragem e a sabedoria de um homem que viveu com grande dignidade, que foi revolucionário na sua escrita e pensamento, precursor da nossa modernidade política, uma vez que Espinosa surge como «o primeiro teórico da separação dos poderes político e religioso» (p.97). Espinosa foi também um precursor do deísmo do Século das Luzes, uma vez que a sua filosofia transmitia a ideia de um Deus imanente, para além de qualquer crença e de qualquer culto (pp.117-119).

Com esta obra de Frédéric Lenoir, conseguimos apreender o pensamento de uma dos maiores filósofos europeus, e gostaria, por último, de destacar o curioso e sensível paralelismo que Lenoir estabelece entre o filósofo Espinosa e o pintor Vermeer: ambos nascidos em Amsterdão em 1632 e unidos pela singular «luz» que transmitem nas suas obras, uma luz que, segundo Lenoir, nos leva a olhar para o homem e para o mundo de uma outra maneira…mais esperançosa, mais livre e mais feliz.