Notas de Leitura

Hesse, Hermann, Contos Maravilhosos, Publicações Dom Quixote, 2014.

Este livro reúne 20 pequenas histórias elaboradas entre 1887, data do mais antigo registo da prosa do autor (quando contava apenas 10 anos de idade), e 1933. É de louvar a tradução de Paulo Rego, bem como as suas notas que, inseridas no final do livro, assumem um teor explicativo e complementar para uma interpretação destes “contos maravilhosos”.

A escrita de Herman Hesse afigura-se, em todas estas histórias, eminentemente hermética, onde a metáfora e a moral, que cada história contem, remete o leitor para o universo filosófico e espiritual do autor. Na minha leitura, distingui três linhas temáticas: a moralidade, a revelação biográfica dos estados de alma do autor, a visão metafórica da Grande Guerra.

Vários destes Contos Maravilhosos exprimem uma moral: a miséria da vida dos sábios ao serviço dos tolos (O Anão); a mortalidade causada pela cobiça desenfreada (O Monte Misterioso); a ambição da perfeição que impede o sentimento de felicidade (O Poeta); o perigo dos desejos imprudentes das mães aos seus filhos (Augustus); o perigo de um governante sensato ficar sob a influência dos caprichos da sua bela mulher (O Rei Yu).

O sofrimento experimentado pelo autor, aquando um esgotamento nervoso, transparece no conto O Árduo Caminho em que a descrição da difícil escalada da montanha representa a fragilidade emocional do doente perante o percurso terapêutico a empreender; e, sobretudo, no conto Sequência dos Sonhos quando as palavras de Herman Hesse não poderiam ser mais claras: «a tristeza que em mim se acumulava cresceu e encheu-me por completo, ao ponto de rebentar» (p.187).

A tragédia da Grande Guerra surge representada em várias destas histórias, reveladoras do pacifismo e da moral do autor: nelas perpassa um clamor “desenfreado” e “angustiado”, «como se todos os povos da terra se unissem num único grito ou gemido interminável» (O Sonho dos Deuses,p.100); uma reflexão sobre aqueles que tiveram de combater e que não foram «os seus instigadores, mas apenas as suas vítimas» (Singular Mensagem de uma Outra Estrela, pp.115-116); culminando no sublime conto O Império (uma súmula brilhante sobre a história da Alemanha) onde a esperança afinal existe, «por entre a escuridão destes dias surge iluminado um caminho (…) que terá de ser trilhado» (p.214).

Escrita hermética e complexa, onde a metáfora é uma constante: «tudo o que é visível é uma metáfora, e que por detrás dessa metáfora reside o espírito e a vida eterna» (Iris, p.159); escrita que exprime, plenamente, «aquela secreta arte de aparentemente dizer apenas coisas simples e singelas, conseguindo, no entanto, revolver a tranquilidade da alma de quem as escuta» ( O Poeta, p.61).