Notas de Leitura

Morrison, Toni, A nossa casa é onde está o coração, Editorial Presença, 2015.

Com profunda sabedoria, Toni Morrison escreveu histórias sobre a herança esclavagista nos Estados Unidos da América, um legado materializado na segregação racial que vigorou até à década de 60 do século XX. Esta obra é mais um exemplo da reflexão, intensa e vigorosa, sobre este fenómeno e das suas implicações sociais e políticas. O espaço, onde decorre a ação, e a trajetória dos seus protagonistas, os irmãos Frank e Cee, constituem uma narrativa marcada pela tristeza e, simultaneamente, pela esperança.

No final da década de trinta, a família é expulsa de Bandera County, Texas, pelos «homens com ou sem insígnia, mas sempre com armas» (p.16), que forçavam as famílias negras a abandonar, eternamente, as suas casas, terrenos, colheitas e gados. A viagem, feita a pé, é descrita de forma impressionante: «[ninguém] sabe o que é o calor até ter atravessado a fronteira do Texas para a Luisiana no verão […] As árvores cedem. As tartarugas cozem sob a sua carapaça» (pp.44-45). Apesar da atmosfera sufocante, do cansaço e da fome, a família consegue chegar a Lotus, Geórgia, descrita por Frank como o pior lugar do mundo: «nada para fazer exceto trabalhos embrutecedores em campos que não possuíamos e que não podíamos possuir» (p.81).

Frank e Cee crescem em Lotus, Geórgia, com uma infância infeliz. Ele irá combater na Coreia (1950-1953). Ela, seduzida pelo primeiro impostor que encontra, verá a sua vida em risco. Quando Frank, desmobilizado e a lutar contra os fantasmas da guerra, recebe a notícia de que a sua adorada irmã estava a morrer, empreende a viagem de regresso a Lotus. É uma viagem que decorre pela América profunda, no auge da discriminação racial, seguindo a única rota que lhe era permitida: o mapa dos locais, hospedarias e restaurantes, onde os negros tinham acesso, porque tudo o mais lhes estava vedado.

Esse caminho de regresso será, para Frank, uma via para a redenção, para a descoberta de outros sentimentos que o libertarão da vergonha, da raiva e dos sonhos de vingança. Também Cee terá de fazer o seu percurso para a descoberta da sua liberdade e da capacidade para se salvar a si própria. Reencontram a pequena comunidade, agora vista com outros olhos. Um espaço onde, vivendo a solidariedade e a amizade, reconciliam-se interiormente, podendo, por fim, chegar a casa.