Notas de Leitura

Tóibín, Colm, Brooklyn, Bertrand Editora, 2010.

Com uma prosa cativante, Colm Tóibín conta-nos a história da jovem irlandesa Eilis Lacey que, em meados da década de cinquenta do século passado, se vê obrigada a emigrar para a América do Norte. Esta singular narrativa, plena de pormenor, está construída em torno de várias oposições: entre dois espaços - a pacatez da localidade irlandesa de Enniscorthy versus o dinamismo do bairro de Brooklyn, em Nova Iorque –; entre duas mentalidades – o conservadorismo irlandês versus a modernidade americana -, e entre a divisão sentimental que, lentamente, começa a assolar a jovem protagonista.

Eilis, «uma rapariga esperta e de confiança» (p.16), vê-se confrontada com o problema da falta de emprego na Irlanda, independentemente das habilitações que fossem apresentadas. Ao invés, os Estados Unidos da América surgiam como uma terra de oportunidade, onde havia muito trabalho e bem remunerado. A comunidade irlandesa residente em Brooklyn, organizada em torno das suas paróquias, dava sinais de prosperidade, e «ninguém que fosse para a América sentia saudades de casa» (p.31). Ao contrário de Enniscorthy, destituída de qualquer novidade, Brooklyn mudava todos os dias, em virtude dos recém-chegados - judeus, polacos, irlandeses ou afro-americanos originários do Sul dos Estados Unidos – que introduziam novas dinâmicas sociais e económicas.

Beneficiando do contacto com a paróquia liderada pelo padre Flood, Eilis, «numa luta com o desconhecido» (p.36), consegue trabalho numa das grandes lojas daquele bairro. O sentimento inicial seria de descoberta onde «cada momento parecia trazer-lhe um novo pormenor a observar ou uma nova sensação ou uma nova informação» (p.64). Contudo, com o passar do tempo, a solidão transforma-se num profundo abatimento, como se Eilis se tivesse transformado num fantasma que vivia num pequeno quarto, percorrendo, diariamente, as ruas de Brooklyn a caminho do trabalho. O seu espírito lutador permite-lhe ultrapassar as dificuldades, e começar a apreciar o novo mundo à sua volta e as pessoas, tão diferentes, que nele habitam. O despertar para Brooklyn, «tomando nota mentalmente de todos os pormenores e pensando em como poderia incluí-los numa carta para a sua mãe e a sua irmã Rose» (p.81); a lição de humanidade aprendida na vivência do primeiro Natal longe de casa, junto da comunidade irlandesa mais pobre congregada na paróquia do padre Flood; vão amadurecer Eilis e prepará-la para a derradeira etapa: o encontro com o amor de um jovem «encantado» num percurso de descoberta ensombrado pela ambivalência sentimental…