Notas de Leitura

Vargas Llosa, Mário, Cartas a um Jovem Romancista, Publicações Dom Quixote, 2000.

Neste pequeno livro, e sob o pretexto de redigir umas missivas de encorajamento a um jovem aprendiz de romancista, Mário Vargas Llosa discorre, com fina erudição, sobre o que é a literatura, e como é devidamente reconhecida por quem sabe, verdadeiramente, escrever, e, acrescento, por quem sabe, verdadeiramente, distinguir [entre tudo aquilo que se escreve] e apreciar.

Diz-nos Vargas Llosa que, para se ser um bom escritor, é preciso vocação, algo que parte do íntimo do sujeito, com o fim de escrever «histórias que deslumbrem os leitores», da mesma forma que ele, enquanto leitor, se deslumbrara por autores como Faulkner, Hemingway, Malraux, Camus ou Sartre (p.9). É de grande interesse quando nos revela o principal atributo da «vocação literária»: a vivência do exercício dessa vocação como a melhor recompensa para o escritor (p.10). Com maestria, Vargas Llosa destaca aquela que é a componente principal da literatura, a saber: o seu carácter puramente ficcional, subjetivo, figurado, logo, nunca é um retrato histórico, mas, precisamente, por ser uma ficção resultante da imaginação e criatividade do escritor, é o contrário da História (p.13). Estabelecida a essência da literatura, importa perguntar: o que é a boa literatura? E, o autor, brilhantemente responde-nos: «é o produto de uma insatisfação íntima [do escritor] contra a vida tal como ela é» (p.14). Consequentemente, tem de ter a capacidade de encantar o leitor, com uma interpretação reflexiva sobre a condição humana numa narrativa gerada a partir da subjetividade da consciência do escritor. Sendo a literatura «puro artifício», Vargas Llosa tem o cuidado de evidenciar que, enquanto a grande literatura consegue dissimula-lo, a medíocre evidencia-o (p.39). Tal dissimulação é conseguida, somente, através da execução do texto perfeito: persuasivo, conciso, impactante, profundamente sugestivo e evocativo (p.59), onde cada palavra, cada frase exprimem a memória e a experiência vivida do escritor projetadas numa ficção que se deseja inspirada por complexas temáticas devidamente construídas e narradas pela sua audácia inventiva.

Cumpridas estas premissas, surge a boa literatura que, para nossa e minha felicidade, nos enriquece, todos os dias, no plano intelectual e na nossa sensibilidade. Aos verdadeiros romancistas e, muito particularmente, a Vargas Llosa, a minha gratidão!