Notas de Leitura

Piñon, Nélida, O Calor das Coisas e Outros Contos, Círculo de Leitores, 2001.

Considero a escrita de Nélida Piñon um desafio. O seu hermetismo, o constante recurso à metáfora e ao simbólico remetem o leitor para um universo muito peculiar, onde a condição humana é intensamente refletida e exposta. Neste livro encontram-se reunidas três coletâneas de contos, a saber: Tempo das Frutas, editado em 1966; Sala de Armas, editado em 1973; e O Calor das Coisas, com edição de 1980.

Todas estas pequenas (e imensas) histórias são contextualizadas pela violência, ora explícita, ora implícita, caracterizando um Brasil marcado pela ferocidade entranhada na sociedade. A par da crueza da escrita, uma profunda ironia perante o modo como se desenrolam as relações humanas. Destacam-se, ao longo destas coletâneas, as temáticas da ditadura militar, da violência familiar, da sátira social e, como não poderia deixar de ser, a do amor.

No âmbito da temática da ditadura militar, o conto «O jardim das oliveiras» obriga o leitor a confrontar-se com a tortura do seu protagonista, cujo horror surge sintetizado nesta frase, tão intensa quanto brutal: «como um porco eu fornecia carne e alegria aos homens [os torturadores]. Permitia que esculpissem em mim outra criatura, parida entre a placenta da suspeita e da covardia» (p.22). As histórias de «O ilustre Menezes» e de «Adamastor» são exemplos da sátira social onde se manifesta o humor fino da autora. O “ilustre Menezes” vivendo entre os humores da sogra, D. Inácia, astuta e vigilante, e a mulher Conceição, tímida e submissa, mas constantemente surpreendido pelo destino «encarnado em formosas damas afeitas ao próprio brilho» (p.50). Quanto a “Adamastor”, homem de metro e meio de altura e sedutor de todas as mulheres, descobre, um belo dia, o significado do seu nome e as razões de provocar o riso alheio. A crueldade que, por vezes, pode viver enraizada no universo familiar surge-nos em vários destes contos: «O calor das coisas», a sinistra história de Óscar, o rapaz obeso a quem a mãe e os vizinhos apelidavam carinhosamente “o pastel”; «A sagrada família», onde a vingança é a condição essencial para se sobreviver; ou o sadismo de «O menino doente», cuja relação com os seus progenitores é caracterizada pela «intensidade degradante e perfeita de uma vida em comum» (p.324). Mas, há lugar para o amor, que a autora nos descreve como sendo esse «sentimento carnívoro, gordo, de vísceras fartas, dentro cabem lágrimas, os teus beijos e o cheiro da agonia» (p.114); com a certeza de que não há mulher sem a história do seu amor (p.144). Finalmente, mais uma linha desta escrita única, que vale a pena guardar e refletir: «Que terra queres homenagear? A terra do mundo, a terra em que pisamos todos ao mesmo tempo.» (p.68).