Notas de Leitura

Steinbeck, John, A América e os Americanos. E Outros Textos. Um Retrato Essencial de John Steinbeck, Editora Livros do Brasil, 2007.

O presente volume, traduzido e editado pela Livros do Brasil, é a versão original de uma antologia publicada em 2002 com o propósito de assinalar o centésimo aniversário do nascimento de John Steinbeck. Encontra-se precedida de uma interessantíssima introdução, infelizmente sem identificar os seus autores, que nos permite melhor conhecer a riqueza e vastidão da obra de Steinbeck considerado «um escritor comprometido com a política e a sociedade do seu tempo» (p.7). Esta compilação reúne os escritos de não-ficção e de jornalismo literário, demonstrando a diversidade das temáticas abordadas por John Steinbeck cuja prosa, elaborada com o coração e a mente, procurou compreender e interpretar a América e os Americanos.

A antologia foi tematicamente dividida em oito partes intituladas: Lugares do Coração; O Artista Comprometido; Obras Ocasionais; Sobre a Escrita; Amigos; Jornalista Destacado; Correspondente de Guerra; A América e os Americanos. Cada uma possui a respetiva nota introdutória permitindo ao leitor apreender o contexto de produção destes textos e as circunstâncias vivenciadas por John Steinbeck.

Os lugares do coração de Steinbeck foram vários, mostrando uma intensa relação com a terra onde nasceu (Salinas, nos arredores de São Francisco, Califórnia), com a cidade onde se desenvolveu como escritor (Nova Iorque), e com o local escolhido para envelhecer (Sag Harbor, no extremo do Long Island). Nestes textos, somos convidados a olhar para a paisagem como algo capaz de enformar o homem, isto é, de o moldar física e mentalmente. Por ter testemunhado alguns dos mais importantes eventos do século XX (a Depressão dos anos 30; a II Guerra Mundial; a Guerra Fria e o Vietname), John Steinbeck foi um escritor profundamente comprometido na «resistência apaixonada à tirania» (p.93) e na defesa dos valores da honra, da lealdade e do amor à pátria. Para Steinbeck, a escrita era algo que lhe proporcionava uma imensa alegria, e o livro, de preferência barato e acessível, o meio de a divulgar. Muito curiosa a sua afirmação sobre o livro enquanto objeto, e que aqui transcrevo por me identificar com ela: «Não gosto dos livros em si. Gosto de me rodear de alguns livros a que posso recorrer por causa do seu texto. Nunca colecionei livros pelo seu valor físico» (p.202). A América é adjetivada por Steinbeck: «complicada, paradoxal, determinada, tímida, cruel, turbulenta, encantadora e muito bela» (p.372). As suas reflexões sobre o trauma da escravatura, «nunca o ultrapassaremos enquanto conseguirmos lembrar-nos se o homem com quem acabámos de falar na rua era branco ou negro» (p.414), e sobre as instituições políticas, são profundas e reveladoras. A nação americana foi, na perspetiva de Steinbeck, estruturada por homens à frente do seu tempo porque «conceberam um sistema capaz de se auto – renovar (…) um instrumento ao mesmo tempo flexível e firme [porque] tem sido à prova não só de ataques estrangeiros como das nossas próprias estupidezes que, por vezes, conseguem ser ainda mais perigosas» (p.400). Sábias palavras …quase premonitórias da complexidade institucional e política que se viria a manifestar nos dias de hoje, na América, e perante a qual, os Americanos, continuam a ser capazes de enfrentar.