Notas de Leitura

Frieda, Leonie, Catarina de Médicis, Porto, Civilização Editora, 2006.

Frieda, Leonie, Catarina de Médicis, Porto, Civilização Editora, 2006.

Uma biografia sobre um personagem histórico é uma das formas mais interessantes de divulgar a História junto do grande público. Elaborada com preceito, uma biografia implica dois níveis de análise que se devem entre-cruzar da forma mais harmoniosa possível: o estudo da personalidade em questão e a sua inserção na época em que viveu, justificando-se, assim, a sua importância e relevância no âmbito dos acontecimentos ocorridos. O trabalho de Leonie Frieda cumpre plenamente estes dois aspectos, aos quais se pode acrescentar um terceiro, não menos importante: uma escrita acessível e apelativa, plenamente alicerçada num trabalho de investigação sério e exaustivo. Catarina de Médicis, rainha de França e mãe dos dois últimos monarcas da dinastia dos Valois, foi uma fascinante e controversa personagem da Europa do Renascimento, conforme nos é revelado nesta obra. Nascida em Florença,

no seio de uma das mais poderosas famílias da Toscana, Catarina chegou a França em 1533 para casar com o então duque de Orleães, filho segundo do rei Francisco I. Tal sucedeu por via da intrincada política de alianças matrimoniais que dominaram as casas reinantes da Europa Moderna. Mais especificamente, este casamento era o resultado do interesse estratégico de Francisco I pela Península Itálica e pelo poderio económico da família Médicis. Catarina tornou-se rainha consorte em 1548 e rainha regente em 1559 devido à trágica morte do marido, o rei Henrique II. A menoridade do príncipe herdeiro, futuro Carlos IX, proporcionou-lhe a regência, tarefa que continuou a desempenhar, já no reinado do filho, em virtude da sua fortíssima personalidade em contraste com a fraqueza do monarca. Este é o ponto central desta narrativa, onde a Autora enquadra a actuação de Catarina num contexto político particularmente difícil e complexo: as guerras religiosas entre católicos e protestantes que dilaceraram a França e, constantemente, puseram em perigo os Valois. A vida da corte também não se revelou aprazível para estes monarcas. A ambição desmedida dos príncipes de sangue, Bourbon e Guise, fizeram com que Catarina pusesse em prática, desde cedo, um habilidoso jogo político com a finalidade de preservar a Coroa para os seus filhos e de manter a unidade da França. Os excessos da actuação de Catarina de Médicis, ora eliminando fisicamente os seus adversários, ora projectando a glória da monarquia junto da população e junto dos visitantes estrangeiros, representam o nascer da realpolitik, concebida e divulgada por Maquiavel: “para se ser um grande príncipe deve-se, por vezes, violar as leis da humanidade” (p.468). Foi esta a excepcionalidade de Catarina, no sentido literal do termo, e que a fez destacar-se no complexo xadrez político da Europa do século XVI.